1) Dados de identificação do sujeito
- nome (fictício), idade, situação familiar, profissão dos pais e condições socioeconomicas da família.
Nome: Tiago
Idade: 16
Situação familiar : Como foi relatado anteriormente, em outras páginas disponibilizadas no Dossiê, Tiago vive com os avós e tios. A mãe constituiu outra família, possui uma filha menor e um novo companheiro. Tiago oscila entre o desejo de (expressado por ele) de fazer sua mãe e sua irmã sumirem e algumas demonstrações de afeto para com a mãe(geralmente, motivadas pelo desejo expresso de conseguir alguma coisa como um novo jogo para o computador, um novo pen-drive ou qualquer objeto de seu interesse)
O pai de Tiago é ausente. Há meses não dá notícias aos seus familiares.
Profissões dos familiares e condições sócio-econômicas: O avô materno é aposentado e dono de um CFC. A avó é confeiteira e atende encomendas de uma clientela fixa. A mãe de Tiago ajuda a avó na produção de doces. Um dos tios é universitário na PUC. Os outros dois, já formados, possuem negócio próprio atendendo escolas de POA. Situação sócio-econômica podendo ser considerada estável.
2) História de vida do aluno
O aluno tinha acompanhamento em um PS próximo a sua casa, com uma psicóloga. Em 2008, junto com a orientadora da escola fui conversar com a mesma e tive a surpresa de ouví-la argumentar que "após a entrada de Tiago na escola, não há mais demanda de atendimento para ele..." naquele PS. A partir do segundo semestre, portanto, embora com nossa insistência (escola e família) o atendimento não teve continuidade.
A avó buscou atendimento com uma profissional cadastrada na Unimed. ( Terapeuta Ocupacional) Conversamos (professoras e coordenadora) com a mesma que, em um primeiro momento, tinha o objetivo de situar-se da situação do aluno na escola e "confirmar" algumas informações levadas pela avó. Semanas depois dessa conversa a avó trouxe a notícia de que não iria continuar o atendimento pela Unimed devido a dificuldades burocráticas com o contrato com a empresa. Durante todo o tempo em que esteve afastado do atendimento do PS e antes de iniciar na Unimed, a escola indicava como uma das possibilidades a Clínica da UFRGS, que atende vários de nossos alunos. A avó nunca se preocupou em verificar essa possibilidade.
Observamos que há um movimento intenso e difícil na família: ao mesmo tempo em que a avó (pessoa responsável por Tiago) busca a ajuda da Escola e tem um discurso voltado para "conseguir o melhor para o Tiago", em muitos momentos "sabota" o processo não buscando outras possibilidades de atendimento, faltando algumas vezes e impossibilitando a presença de Tiago na escola, com a justificativa de que tem muitas encomendas. Quando a sugestão de que outra pessoa (tios, avô...) o traga é feita, argumenta que ele não iria querer, que seria muito difícil para outra pessoa trazê-lo.
Na realidade, observamos que Tiago determina o que a avó deve ou não fazer e, geralmente, consegue o que quer. Um dos maiores desejos de Tiago é ter a avó só para si, sem dividí-la com outros familiares. Muitas vezes, ao conversar conosco (suas profes) fala que a avó "é como um bicho de estimação", para ele: precisa "cuidar e ficar perto, e ela, obedecer".
Percebemos que "desvendar Tiago" através de atendimentos especializados é também desvendar a relação construída entre avó e neto, o que parece se configurar como uma certa ameaça.
Ao mesmo tempo em que há o desejo de melhora, de acompanhamento e auxílio há a sombra de uma dúvida: "o que vou fazer com se alguma coisa mudar, realmente? "
3) Comportamentos observáveis na escola sobre:
relacionamentos com colegas, professores e outros
Tiago tem dificuldades em relacionar-se com as pessoas da escola. Elege, por um determinado tempo, uma das professoras e procura falar apenas com ela, tornando-se indiferente à colegas e a outra professora da turma. Desde o ano passado demonstra insuportabilidade de permanecer no mesmo espaço com algumas professoras da escola. E os motivos são vários: diz que uma é espiã aposentada da Brigada, que está ali para fazer relatórios e indicar quem vai ser mandado para uma Clínica; outra não o cumprimentou com o devido respeito, uma é professora de Ed. Física de outra turma o que, segundo ele, não é permitido. Os motivos vão se alterando com o tempo. Tiago demonstra sentimentos persecutórios e, muitas vezes, se recusa a interagir com os colegas. Geralmente, disputa a atenção, das professoras alterando sua voz e tentando ironizar as dificuldades observadas nos colegas. É inegavel, entretanto, que mantém uma relação um pouco mais próxima comigo e com minha colega de turma. (suas duas professoras)E è através desse vínculo que, muitas vezes,conseguimos que volte atrás e participe de um jogo ou da roda da conversa. Ainda está em horário reduzido pois sua suportabilidade à rotina de todo o período é pequena.
questões de aprendizagem
Tiago lê e escreve com relativa facilidade. Lê diferentes portadores de texto, demostrando compreensão. Reconhece numeos e os relaciona à quantidade. Entretanto, não consegue escrever quando solicitado ou até mesmo desafiado; diz ser tudo uma bobagem. Se, há alguma insistência de nossa parte ou mesmo o convite de um dos colegas, se recusa, eleva a voz, chama o grupo de burro e foge da sala. Em todos os momentos que percebe haver a possibilidade de não ser o centro das atenções e estar realizando uma atividade junto ao grupo, tenta desistir. Em alguns momentos, recua, a meu pedido e diz fazê-lo para me dar uma chance.
Os movimentos de inclusão e atendimentos já foram relatados anteriormente.
(Saliento, entretanto, para melhor entendimento de quem lê, que o movimento atual de inclusão está voltado para a própria escola. Tiago ainda não consegue permanecer neste espaço, com uma turma de mais sete colegas e com duas professoras. COMO JÁ RELATADO ANTERIORMENTE, Tiago teve experiências mal sucedidas no ensino regular.)
Sobre avaliação:
Em minha escola construimos um Relatório da Turma e um Relatório Individual do Aluno.
Em conversa com as famílias , este relatório é entregue. Este é um momento mais formal :entrega de avaliação a cada final de semestre. Saliento, entretanto, que vários encontros individuais e em grupo são realizados com os familiares com o objetivo de fortalecimento de vínculos, estabelecimento de parceria entre família e escola e acompanhamento do trabalho realizado. Portanto, nossa avaliação se dá no dia-a-dia e é entregue, apresentada formalmente, ao final de cada semestre.
O que é considerado aqui, neste works, como final de estudo de caso, na verdade não o é. Este caso, continua, evidentemente. Na verdade, sua escrita iniciou bem antes da construção desse Dossiê e, certamente, está para além do mesmo, com o acompanhamento dos profissionais de minha escola. Espero entretanto, ter possibilitado a observação e reflexão sobre parte desta história.
Ressalto uma afirmação de Lenise Pistóia:
"Educar na diversidade pressupõe a adoção de um modelo de currículo que facilite a aprendizagem de todos os alunos e alunas em sua diversidade"
Acredito estar aí uma questão fundamental: a escola deve ser inclusiva para todos, não apenas para alunos considerados portadores de necessidades. A Escola necessita ser repensada como um todo e, não, de forma compartimentada. As condições de estrutura, de acessibilidade, devem ser pensadas e executadas objetivando uma qualificação no que é oferecido aos alunos.
Na unidade 6, pudemos ler "...por apresentar um rendimento escolar diferenciado em relação aos colegas, em geral é um aluno que demanda uma série de modificações no contexto escolar, envolvendo currículo, conteúdos, intervenção pedagógica, avaliação, apoios..."
Em nossas escolas, observamos, muitas vezes, a dificuldade em relação aos serviços de apoio como SOE.
Muitos alunos necessitam de encaminhamento e acompanhamento e não os recebem. No Estado, uma das justificativas parece ser falta de RH.
Já no município de POA, de acordo com o que vivencio e, também, a partir de textos disponibilizados pela interdisciplina, constato que a caminhada é outra, com modalidades diferenciadas de atendimento sendo oferecidas. Como já mencionei anteriormente, acredito em uma inclusão que respeite as possibilidades do aluno, que ofereça condições, que seja trabalhada entre todos os envolvidos. Sou a favor das Escolas Especiais . Trabalho em uma escola especial e inclusiva. Há o movimento de inclusão de nossos alunos, no ensino regular, quando há condições(por parte do aluno) e possibilidade na escola.
Em e-mail enviado a uma colega e, por ela, disponibilizado em seu blog , eu saliento:
"Eu adoro o meu trabalho, adoro meus alunos e acredito na Inclusão. De alunos e professores. Uma inclusão pensada, planejada, que respeite o tempo e momento de quem pode e deve ser incluído. Que não esqueça que para incluir é preciso que do outro lado, quem recebe, esteja preparado para não excluir. Incluir não é colocar alunos para dentro de salas de aula repletas apenas para garantir índices favoráveis ao governo. Este tipo de inclusão eleitoreira, em respeito aos meus alunos e colegas, e em tudo o que vivencio e acredito, eu repudio."
Comments (5)
esponjamusical@... said
at 10:27 pm on Jun 13, 2009
A página está em construção ...
Simone Ramminger said
at 12:47 am on Jun 15, 2009
Ótimo Bia, vejo que estás organizando as informações solicitadas para o estudo de caso, nesta página. Sabes desde quando o Tiago vive com os avós e tios? A escola tem algum registro do diagnóstico do menino? É uma pena que ele tenha perdido o acompanhamento com a psicóloga do posto de saúde e que a avó dificulte novos atendimentos, em função de questões suas. A escola não consegue conversar com os tios e avô do menino? Talvez eles possam ajudar.
A atividade da unidade 6 já está disponível no Rooda, em aulas e deve ser postada até 21/06.
Qualquer dúvida, faça contato.
Um abraço, Simone - tutora sede EPNE
Simone Ramminger said
at 11:55 pm on Jun 28, 2009
Maria Beatriz no teu relato trazes as informações solicitadas na atividade da unidade 6. Tua atividade está ok.
Relatas também alguns problemas familiares. No texto "Deficiência Mental e Família: Implicações para o Desenvolvimento da Criança", Silva e Dessen falam sobre a importância do ambiente e da cultura para o desenvolvimento da criança: " A gama de interações e relações desenvolvidas entre os membros familiares mostra que o desenvolvimento do indivíduo não pode ser isolado do desenvolvimento da família (Dessen & Lewis, 1998)".
Um abraço, Simone - Tutora sede EPNE
maurentezzari@... said
at 1:26 pm on Jun 30, 2009
Olá Bea, muito interessante o teu relato sobre a vó de Tiago. Como nos deparamos com situações parecidas com essa! Todo um discurso de preocupação, mas as ações vão no sentido inverso!Essa organização que fizeste ficou bem legal. Qualquer dúvida, entra em ocntato conosco. Um abraço, Mauren
Simone Ramminger said
at 12:00 am on Jul 8, 2009
Maria Beatriz fizeste a postagem das informações solicitadas nas atividades das unidade 6 e 7. Inclusive na última fizeste relação com a teoria. As atividades estão ok.
Também destaco um parágrafo do texto "A rede de interações" de Pistóia. Ela comenta que "o ser humano é o resultado de suas interações e a vida é a busca incessante por novos conhecimentos. Estes novos conhecimentos, de forma nenhuma, representam um investimento em vão. Eles são a efetivação do que se pretende, em termos de proposta educativa para os alunos em situação de desvantagem. São estes que constituem-se no maior desafio a ser enfrentado, pois representam a mudança radical no atual panorama educacional. Um dado extremamente relevante é que a transformação proposta pela educação inclusiva está a desacomodar todos os sujeitos envolvidos nas relações escolares, pois não são apenas os alunos em situação de desvantagem que precisam “estar inseridos”, são todos os sujeitos da prática educativa. Todos aqueles que estarão envolvidos nas transformações propostas, no âmbito educativo, buscando incessantemente o conhecimento."
Um abraço, Simone - tutora sede EPNE
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