Em 2008, na disciplina de Estudos Sociais, novamente refleti sobre o meu fazer e sobre aqueles com quem convivo no dia a dia. Julgo oportuno partilhar neste dossiê o trabalho que hoje, carinhosamente, chamo de Contato Imediato, como a música cantada por Arnaldo Antunes.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
PEDAGOGIA ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL
REPRESENTAÇÕES DO MUNDO PELOS ESTUDOS SOCIAIS
PROFESSORA:Maria Aparecida Bergamaschi
ALUNA: Maria Beatriz Santos Guterres
ATIVIDADE FINAL
ENFOQUE 5
2008
“A noção do passado é formada passo a passo, através das vivências das crianças. A construção do passado se dá no momento em que a criança tem a percepção do seu próprio eu e inicia a construção de sua própria identidade.” (CASTELLAR, Sônia)
Começa por esta afirmação o início da história... Sou professora em uma Escola Especial, no município de Porto Alegre. Tenho uma turma de Terceiro Ciclo com adolescentes que possuem entre 16 e 21 anos.
Já mencionei algumas vezes, em outros escritos, a expressão Transtornos Globais de Desenvolvimento. Mas retomo e facilito o entendimento: meus alunos são autistas e psicóticos. Alguns possuem outras síndromes associadas ao Autismo e Psicose.
Quando releio a afirmação de Sônia Castellar sobre a construção do passado a partir da percepção que as crianças têm de seu próprio EU, fico pensando: “E aqueles que não tem essa percepção? Que não se reconhecem?”.
Meus alunos necessitam de atividades que os auxiliem a sair de suas conchas. Muitos deles, por características da doença mental, têm a tendência a se isolar, de fugir dos grupos sociais. E, é por aí que nosso trabalho começa...
“Peço, por favor,
Se alguém de longe me escutar
Que venha aqui pra me buscar
Me leve para passear”
“No seu disco voador
Como um enorme carrossel
Atravessando o azul do céu
Até pousar no meu quintal”
Estas estrofes são de uma música chamada Contato Imediato. Cantada por Arnaldo Antunes tem a cadência de uma canção de ninar. Ao ouvi-la pela primeira vez relembrei de determinado aluno, que tem sido o foco de meus registros no PIE. De início imaginei que o personagem da música convida alguém, o piloto do disco voador, para que o leve deste mundo real, que o transporte através dos sonhos, quem sabe... Será?
Entendo que os Estudos Sociais para uma turma de adolescentes com Transtornos se iniciam através de tentativas de resgate. O primeiro resgate se dá ao darmos atenção ao grupo mais fragilizado neste contexto: a família. Com a entrevista e construção da cartografia do aluno com seus familiares iniciamos um dos muitos movimentos de aproximação e estreitamento de vínculos: estamos com o primeiro grupo social de nossos alunos.
É através da escuta dos familiares, das suas histórias de vida, de seus medos, desejos, metas a serem alcançadas, metas sonhadas, mas impossíveis de serem realizadas que vamos conhecendo nossos alunos e suas histórias.
O segundo resgate é o do dia-a-dia: a tendência de certos alunos é a de isolamento. Procuram um determinado espaço e ali tentam permanecer, muitas vezes, se recusando a interagir com professores e colegas. Nossa tarefa se entrelaça com a crença de que somos “pilotos dos discos voadores” e que ali estamos para cutucar, desafiar, desestabilizar certos rituais. Tentamos levar nossos alunos para um outro lugar, longe de onde procuram estar ou de onde conseguem ficar. (Mas, com certeza, muito próximo da realidade social predominante.) Então, quando insisto que, na chegada à escola, minimamente que seja, se cumprimentem tocando as mãos, que sentem perto uns dos outros, que observem fotos de si e dos colegas, estou enfocando o pertencimento àquele grupo: o da turma, o grupo da escola, que difere da família.
Uma questão foi trazida pela equipe de Estudos Sociais do PEAD-UFRGS: “Concorda com a organização do currículo baseada exclusivamente nos círculos concêntricos (eu, família, escola, bairro, município, estado, etc.)?”
A resposta vai além de uma afirmativa ou negativa. Não acredito que sempre respeitar essa linearidade seja aconselhável. Desta forma poderia dizer que todas as crianças estariam com o mesmo currículo o que é impossível, na prática. (pelo menos, penso que muitos professores como eu, também pensem...) Há mais mistérios entre o EU, Família, escola, bairro...do que podemos imaginar. Podemos pesquisar sobre o Japão e seus costumes, sobre o que é o congresso, o que é política...
Trabalhar estas noções e conceitos é possível, mas não é a única e exclusiva forma.
Embora não acredite que as datas significativas de nossa cidade, país, de nossa cultura devam ser trabalhadas mecanicamente tipo “19 de abril, dia do índio, vamos fazer cocares”, “dia do meio ambiente, vamos plantar uma árvore...”, percebo a necessidade de marcar, frente a nossos alunos especiais, certos festejos como uma forma de integração entre os diferentes grupos sociais que a eles se apresentam: o grupo dos colegas de outras turmas, de sua turma, o grupo das famílias participantes, o grupo dos convidados a realizarem apresentações artísticas. Desta forma, a festa junina, por exemplo, é aguardada com ansiedade por muitos alunos, sem a vinculação ao seu significado histórico-cultural, mas como mais uma possibilidade de interação.
Através do interesse de um de meus alunos pesquisei um pouco mais do universo de mangás e animês, sobre o Japão e, atualmente, para desafiá-lo, em uma tentativa de mudança de foco, pesquiso algumas curiosidades sobre a Cerimônia do Chá. Entretanto, enquanto poderia, em uma escola regular, realizar um projeto com tempo previsto, com atividades de culminância; em minha escola, com este aluno, sua tolerância e capacidade de abstrair alguns conceitos são os determinantes para a continuidade ou finalização de uma pesquisa e/ou propostas de atividades. Mas aí, fico pensando se isto também não deveria ser considerado em outras escolas...
“Vem me levar
Para um lugar
Longe daqui
Livre para navegar
No espaço sideral”
Em outro documento, postado no Rooda, saliento que “A primeira coisa que acho importante ressaltar é que procuramos modificar algumas posturas familiares que se remetem a “esconder”, isolar, “descontextualizar” seu filho especial. Por muito tempo era incomum vermos pessoas consideradas diferentes, nas ruas, nos shoppings, em praças, cinemas. Então, buscamos romper as barreiras de muros imaginários ou, não.Visitamos museus, vamos a teatros e participamos de eventos na cidade. Claro, que dentro das condições e possibilidades de cada um dos alunos e/ou turmas. Também é interessante colocar que, em alguns casos, não há possibilidade de fazermos reconhecimento de espaço, rua, bairro. Muitas vezes, nosso aluno não tem consciência corporal e, neste caso, o trabalho é outro, evidentemente.”
Novamente retomo os versos cantados por Arnaldo Antunes: e se o espaço sideral for o nosso dia-a-dia? E, se o “lugar longe daqui”, se referisse a uma outra possibilidade de interação, um vislumbre de reconhecimento de seu corpo, de seus gestos e de suas relações com o outro? Então, certamente, posso me considerar como um piloto de um disco voador, desejoso de entrelaçar meus dedos nas mãos da figura que me espera.
Mas saberei o caminho a traçar com meu disco voador? Sei todas as rotas, as condições climáticas favoráveis? Sei viajar no tempo possibilitando que meu aluno faça uma viagem segura? E o que os Estudos Sociais têm com isso?
Bem, as respostas estão vinculadas ao desejo que possuo, enquanto educadora, de aprender e auxiliar. Aprendo quando reconheço que ainda há muito a descobrir e vou atrás de respostas. Auxilio à medida em que acompanho meus alunos, respeito suas diferenças e, apesar e por estas diferenças, encorajo-os a modificar posturas.
Considero os Estudos Sociais mais do que História ou Geografia escolar. Considero-os como Temáticas de Vida.
Através de passeios, de subidas difíceis em degraus de ônibus, em escadas rolantes, de sustos e receios em locais e ambientes fechados como cinemas e teatros nossos alunos vão se mostrando, enxergando e se tornando parte de uma realidade diferente, por vezes assustadora e, esperamos, em muitos momentos, verdadeiramente inclusiva.
“É essencial que nós, professores, continuemos pesquisando o que se passa "na cabeça" das crianças investigando como ela vai percebendo e construindo estes conhecimentos.” (Antônio Castrogiovanni e Beatriz T. D. Fischer).
Com o trabalho de fotos dos diversos momentos da rotina e da exposição das mesmas em um varal enfocamos as noções de seqüência e sucessão de acontecimentos. Através do manuseio de crachás com fotos, os alunos são estimulados a participar da chamada da turma, verificando onde está a sua foto, que ela será colocada no lugar “de quem está na sala”, que as outras fotos são de outras pessoas que estão ou, não na sala e que todas têm um lugar...
Antônio Castrogiovanni fala da necessidade dos Estudos Sociais refletirem a realidade do aluno e não a repetição de conteúdos, muitas vezes, descontextualizados do que acontece na sociedade. O professor necessita encontrar sentido no que faz, no seu planejamento e em suas ações.
Meus alunos apresentam muitas dificuldades de compreensão de noções que seriam consideradas básicas para um adolescente livre de autismo ou psicose. O ontem, hoje, amanhã, da forma como utilizamos convencionalmente, inexiste para muitos. Com o auxílio de um grande calendário mensal afixado na parede, marcamos a sucessão dos dias e destacamos acontecimentos especiais como idas a museus, passeios, visitas na sala. Entretanto, da parte de muitos há um grande silêncio, um “quase observar”, um “quase responder”, um “quase questionar”... Um quase.
Encontro sentido no que faço sempre que vislumbro um sorriso, um olhar de relance, um olhar livre do vazio, uma palavra, um gesto, quando um aluno lava as mãos, quando consegue, depois de muito esforço, usar os talheres com maior adequação. Paradoxalmente, também encontro sentido quando o silêncio predomina, a desorganização se apresenta.
A professora Beatriz Magdalena comenta que se soubéssemos como é a lógica de funcionamento de pessoas como meus alunos poderíamos, cada vez
mais, ajudá-los no “desenvolvimento de cadeias de pensamentos mais complexos”.
“Porque sei que sou
Semelhante de você
Diferente de você
Passageiro de você
À espera de você”
As Ciências, Matemática, Estudos Sociais, Português , tudo está interligado. Desaprendemos muita coisa em nosso período escolar. Desaprendemos a ter um olhar multidisciplinar preferindo, muitas vezes, compartimentar conteúdos. Necessitamos nos alfabetizar em todas as áreas do conhecimento e do sentimento. Acredito que uma plena alfabetização está presente em quem vivencia a autonomia, quem aprendeu a cooperar, quem busca a justiça e, principalmente, em quem respeita todas as formas de vida.
Contato Imediato
Arnaldo Antunes
Peço por favor
Se alguém de longe me escutar
Que venha aqui pra me buscar
Me leve para passear
No seu disco voador
Como um enorme carrossel
Atravessando o azul do céu
Até pousar no meu quintal
Se o pensamento duvidar
Todos os meus poros vão dizer
Estou pronto para embarcar
Sem me preocupar e sem temer
Vem me levar
Para um lugar
Longe daqui
Livre para navegar
No espaço sideral
Porque sei que sou
Semelhante de você
Diferente de você
Passageiro de você
À espera de você
No seu balão de São João
Que caia bem na minha mão
Ou numa pipa de papel
Me leve para além do céu
Se o coração disparar
Quando eu levantar os pés do chão
A imensidão vai me abraçar
E acalmar a minha pulsação
Longe de mim
Solto no ar
Dentro do amor
Livre para navegar
Indo para onde for
O seu disco voador
Referências Bibliográficas:
BERGAMASCHI, Maria Aparecida. Do acaso à intenção em Estudos Sociais.
CASTROGIOVANNI, Antônio, FISCHER, Beatriz T. D. Se não houvesse Estudos Sociais nas Séries Iniciais?
SANTOS, Simone Valdete dos. O Ensino da História nas séries Iniciais – um olhar desde a perspectiva curricular integradora
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